Crítica

Liberdade e Verdade na Arte de Ruy Silva

Olhar e fixar os trinta anos de arte de Ruy Silva é evocar a liberdade e a verdade, valores universais e essenciais à felicidade e à vontade humana.
Alheio aos desvios instrumentais e culturais da arte actual, nomeadamente na pintura e na escultura, Ruy Silva permanece fiel ao vínculo dogmático e filosófico entre a arte e o belo, explorando e procurando um belo com verdade e liberdade, numa abordagem que lembra Umberto Eco quando relaciona o belo com o bom.
Optimista, a originalidade e complexidade da sua obra denuncia incitações e contaminações tão diversas como as do Renascimento ou, genericamente, da Arte Sacra, acusando ainda uma admiração e atenção às obras de Miguel Ângelo ou Francis Bacon. A sua matéria recorre, por isso, ao corpo físico ou metafórico, geralmente nu, para significar a verdade e a liberdade anteriormente enunciadas. Crê ainda na representação e captação do fragmento como sugestão e comprovação do todo, acreditando que se adivinha o todo pelas partes, através da imaginação e apreensão tangível do observador.
Concentra a atenção e a expressão sobre o corpo ou o rosto como protagonistas, destacados de fundos geométricos e periféricos neutros, planos, dispensando ambientes ostensivos ou opressivos, desvalorizando arquitecturas ou estruturas complementares. A dispensa de profundidade é intencional e essencial porque traz o corpo ou o rosto para primeiro e praticamente único plano. Esta aparente contradição ou oposição entre figuração e abstracção resulta deliciosamente transparente, apropriável e identificável por quem a observa.
A sua arte surge ainda com motes que constituem versões e actualizações cultas de temas celebrados ou denunciados no passado. Transversais ao tempo e ao homem, são agora transpostos para o presente, adquirindo ressignificações e reinterpretações úteis necessárias à inquietação e inconformação quotidiana.
Simultaneamente espirituais e sexuais, os seus motes conciliam universos habitualmente divorciados e tratados isoladamente. Independentemente das abordagens, aproximam-se do retrato figurado e encenado com narrativas que importa imaginar e captar com o olhar, dominando as ferramentas disciplinares instrumentais e culturais habituais mas surpreendendo, aqui e ali, com suportes inesperados e adequados à mensagem que quer fazer sentir e transmitir.
Ruy Silva reflecte assim sobre as complexidades e contradições da estrutura da razão e a arquitectura da condição humana. São representações com uma tensão aparente e presente nos impulsos impressos na dimensão do corpo ou na expressão do nervo sob a pele. Paralelamente, depressões e ondulações nos panejamentos, marcadas pela gravidade e vivacidade do tecido, remetem para apropriações classicistas e realistas quando figuram ou insinuam corpos, em expressões que transportam a escultura para a pintura. Consegue, assim, com pele ou pano, introduzir texturas vivas que parecem respirar ou transpirar.
Recorre à luz para exaltar e celebrar uma energia amarelada e avermelhada, transversal e visceral na sua arte. Outras cores acesas, iluminadas e texturadas, revelam uma ansiedade e intranquilidade intencional, compensada e protagonizada por atmosferas intensas, positivas, carregadas de vitalidade e criatividade. O laranja é influente e persistente mas, contrariamente a Francis Bacon e aos seus medos silenciados e abafados, surge aqui entusiasmado estimulando aspirações e realizações individuais.
Premiado e exposto nacional e internacionalmente, o acervo que herdamos e guardamos de Ruy Silva é singular. Singular porque contém, sempre, um sentimento de confiança e de esperança para o futuro.

João Paulo Rapagão
Arquitecto e Professor Universitário
5 de Outubro de 2019

Um trabalho que se procura consolidar como via peculiar, com coerência. Uma vontade sólida de afirmação própria, enquanto gosto estético/estilo… e sua consequência. Um afirmar de condição circunstancial. A diferença a continuar estudos sedimentados,…a procurar um começo! (“Primeiro continua-se, depois começa-se”, dizia o filósofo Richard Rorty de todo o trabalho intelectual empenhado…e do artístico, por maioria de razão!).
Um expor de trabalho denunciando (sem tibiezas ou insipiências) vocação e “temperamento” (o que Amadeo dizia do necessário-e-suficiente para um artista pintor). O senso comum chama-lhe talento. Os ingleses “skill”.
São telas pintadas a óleo, pequenas no formato, de pendor etno-iconográfico – o “outro” e o “nós” – ameríndios ou velhos beirões, em sépias (talvez um adivinhado retorno, feito de melancolia irónica, porém serena, ao “amarelecido” eternizar do instante dos “daguerreótipos”, primícias da fotografia).
Traço rigoroso, expressão, sentido “dérmico”… o tempo marcado em rostos únicos (e no entanto familiares!). Registos ontológicos, poderíamos comentar, sem pretensão.
Depois, outros óleos de maiores dimensões, com interessantes apontamentos de inovadora “academia”. Esfolados anatómicos retirados com perícia e minúcia das gravuras do ensino erudito da arte-escola-pés em escorço com as suas marcas e “acidentes” de superfície (veias realçadas), braços, corpos (ou parte deles), registados com grande sentido de neutralidade recontextualizados numa teoria de composição de grande serenidade. Tons sóbrios e planos. Por contraste, propositados ênfases cromáticos de contraponto. O equilíbrio q. b. trazido em natural harmonia. O rectângulo e a regra de ouro reconfirmados (como deve ser!). Uma via a explorar em mais obra a haver. Com crescente segurança de meios discursivos, seguramente!
(…)
Parabéns Ruy Silva!
Deve continuar por aí… (porque é o seu caminho!).
Receba o mais sincero incentivo e apoio crítico do seu ex-professor e actual colega.

Luís Calheiros
Professor e Investigador de Teoria da Arte – ESEV.IPV
in “DO RIGOR E DA SERENIDADE”
Viseu, 6 de Maio de 2001

A anatomia humana foi conhecida, através da observação, desde que o homem existe na terra, encontrando-se o estudo sistemático e descritivo em obras que nos lega a antiguidade, vindas de Aristóteles e Heráclito, entre outros. A dissecação de cadáveres foi prática comum ao longo da história da humanidade, para formar e procurar o entendimento do que constituía o homem materialmente, esse ser excepcional de imensas e insondáveis capacidades. Nesta vertente de fascínio pelo homem/forma, entidade excepcional, que aborda artisticamente, o qual tem como formulação ou transmutação estética subordinada ao progresso das civilizações e das suas concepções espirituais.
No caminho percorrido desde as primeiras formas estereotipadas de representação feminina até à contemporaneidade, muitos foram os génios que se sucumbiram diante da beleza do homem, percorrendo caminhos que vão desde abordar a visão académica, originária do mundo da ideia limitada, e não o mundo do desejo.
O corpo belo/real de dimensão plástica remete-nos às insondáveis dimensões do mistério… no autor e em nós, espectadores!
Usar a anatomia na criação artística, apresentando-a ao público, é o arrojo de quem se apaixona pelos corpos, que dá forma nas telas, e, que ainda procura dentro dos seus elementos de forma separada, é a obra de Ruy Silva.
A mão seduz, bem como o braço, o pé ou o músculo ou todo o corpo espiralado em si mesmo, ocultando o rosto em panos pregados plenamente conseguidos, macho pela fêmea, num encantamento de um templo da alma livre das amarras das vestes que o ocultam, exibindo orgulhosamente a natureza!
A tela, o espaço que em Ruy Silva é limpo, abrindo janelas para a afirmação da existência material humana, que nos surge delineado com purificado estilo técnico e uma grande sensibilidade.
Mérito seu!
A sedução plena, trabalho árduo, estudo e empenho, poderão levar a tratar desta forma maior a criação de divindade!
Obrigada pela perpetuação plástica da existência que provoca o progresso do mundo!

José de Albuquerque Christo
in “ANATOMIAS SEPARADAS”
2001

Sobre fundos cosmológicos de belo espacialismo pictórico, ricos de texturas e luxuosos tecnicismos, Ruy Silva parcela os seus quadros com um certo geometrismo neoplástico construtivista, abrindo as janelas a um mundo figurativo. Há uma busca do baconeano de seres vivos, desnudados com a sua carne barroca numa bela geometria. Figuras situadas em espaços enclausurados, em atmosferas de solidão opaca. Em fundos planos e monocromáticos, as figuras afirmam-se como ícones fossilizados, submergidos entre a tortura e a verdade, com um certo ar erótico e sexual.
Ruy Silva pinta fragmentos de corpos anónimos, sem rosto, com uma quase autoconfiança do irreverente, imagens sob fundos vazios e frios, numa explosão visceral. Estas “Anatomias Separadas” mostram o conhecimento que o pintor tem da figura nua e como seguiu os conselhos de Leonardo da Vinci, que havia dissecado mais de dez corpos humanos, dá na sua “Arte da Pintura” aos pintores anatomistas: “Ó pintor anatomista! Tem cuidado para que o teu grande conhecimento de ossos, tendões e músculos não te façam pintar secamente nus que nos permitem ver os seus meandros”.

Alejandro Mora Piris
Critico de Arte
in “ …PINTOR ANATOMISTA!”
Espanha, 2002

Ruy Silva procura com particular visibilidade a essência iconográfica do mundo que o envolve, as interacções da matéria e da energia através de uma via reducionista que o conduz à representação minimal dos significantes mínimos necessários ao acto identitário e identificador, num contexto pictórico em que potencia os efeitos cromáticos e explora a sensualidade das texturas num texto sem contornos interpretativos das terapias energéticas.
Seguro deste confronto de um mesmo formulário, pesquisa a expressividade da significação energética, num diálogo entre os referentes da cromoterapia e os elementos da pirâmide alimentar, através de uma plástica sensual e poética, moldada pela relação entre variantes cromáticas e a sugestão dos alimentos com que constrói cada obra, enquanto universos autónomos e portanto como referenciais diferentes mas simultaneamente como elementos de um mesmo contexto. Posicionado num plano entre o sensitivo e o sensorial e a construção conceptual, o pintor desenvolve então um léxico de grande efeito empático, através do recurso a tessituras que se articulam sobre uma estrutura geométrica evanescente das gramáticas neoplásticas, pesadas aqui, também, enquanto expoente vital da dinâmica compositiva, confrontando-se com elementos metálicos rasgados num acto punsional com grafias que induzem a essa cumplicidade entre cores e alimentos. Ruy Silva estabelece, deste modo, toda uma gramática através de um metadiscurso no qual o reconhecimento das formas, passa primeiro pela identificação da memória das sensações do observador para depois se enquadrar num informe mais erudito das relações da terapia através de sinergias entre cores e alimentos.
O pintor abandona a via cognitiva do formalismo, aqui redutor, e os enquadramentos mais formais, partindo para uma opção focalizada numa metodologia com a qual procura por todo o lado a sistematização das potencialidades expressivas do binómio textura/cor, procurando por outro lado a acção reflexa do espaço do observador. A preocupação da construção da mensagem reside neste discurso, não na intenção de provocar interpretações conexas com o contexto de filtragem individual de cada espectador, mas remetendo para este a descodificação da espessura dos vários significantes e leituras com que moldou a obra, de forma afinal erudita.
Entre a linguagem dos neoplasticistas e os tratamentos expressionistas abstractos das superfícies num cromatismo de várias tonais muito subtis, Ruy Silva potencia um conjunto de propostas de leitura emotivo/paisagística entendíveis aqui através da problematização do conceito de espaço, que neste século tem convergido sistematicamente para a redução e para a cada vez maior valoração das sensações na construção e leitura da imagem, produzindo assim, na pintura, um discurso abstracto, informal, basilarmente sustentado não apenas pelo acto de “gostar” fazer e ver, mas remetendo inteligentemente para o espectador o papel identificador, não só da sua própria simbologia mas também dos próprios elementos referenciais das energias da vida.

Júlio Quaresma
Crítico de Arte, Arquitecto e Pintor

Na sua mais recente mostra, Ruy Silva aventura-se numa apropiação insólita, marginal à metáfora do “senhor roubado”, homenageando o mítico Grão Vasco, transversalmente à História. Comete um acto libertário e literalmente amoral, emergente duma possessão assumida, incontinente e delirante. Rende-se ao fascínio, à sedução da magia sobre ele exercida pela arte da escola dita de Vasco Fernandes, e dela procura ressuscitar para a sua própria pintura, a beleza simples, de “partes-do-todo”, obscuras, ou semi-ocultas, sob a complexidadade cénica ou a glória compositiva, desses “chefs-d’oeuvres” deles as extraindo, algo licencioso e impudicamente, um leitmotiv para a continuidade da sua investigação criativa.
Houve quem, na sexta década do século passado, ousasse tirar o Copyright historiográfico a Nuno Gonçalves, sobre os painéis de S.Vicente, a favor de Vasco Fernandes… E não faltou quem, criativamente, tivesse sido tentado a traduzi-lo, ou recriá-lo – em pintura portuguesa recente – numa acepção diametralmente oposta à “teoria da apropriação” – que considero subjacente ao trabalho em apreço.
Noutra espécie de exploração projectiva e sublimar da Geometria Sagrada, Ruy Silva prossegue o seu modus operandi estruturado sob um modelo, em que equaciona contrapontos simbólicos sobre o geometrismo construtivo do plano básico dos seus quadros, onde estabelece as superfícies que recolhem (neste caso) excertos descontextualizados, da escola viseense do século XVI.
Trata-se, (in)diferencialmente, de imagens absorvidas de obras-primas, tal como procedera a pretexto da cromoterapia, com a imagem de frutos e produtos hortícolas, enquanto elementos da pirâmide alimentar.
No caso vertente, depura-as, descontextualizando-as da sua envergadura monumental, transmutando a sua aparência, dimensão memorial e significado histórico, aleatoriamente remetidas para uma nova e diametralmente oposta significância simbológica.
Conjuga essas figuras, roubadas de primeiro e segundo plano, sobre suportes interassociados, naturais e sintéticos, apondo-lhas como formas singulares e autónomas – às quais é conferida suficiência imagética do desenho – nelas submergindo qualquer paralelismo com a representação minimalista, como se nos (re)lembrasse que […] «no decurso do séc. XX, o desenho ganhou mais importância como meio de intervenção criativo, atingindo um âmbito muito vasto, pondo em causa as ortodoxias sedimentadas ao longo dos séculos».
Ruy Silva executa uma pintura predominantemente serena, não gestual ou matérica e, paralelamente, sobrevaloriza o sua própria caligrafia no preto-e-branco da grafite – que tanto lembra Luís Jardim ou Santiago Areal, como Bernardí Roig (reminiscência de “Pissing Women”) – sob a doce naturalidade de veladuras particularmente atractivas, eventualmente denunciantes da sua propensão para a integração moral para a arquitectura interior, para o que – muito obviamente – denuncia certo pendor vocacional.
Ruy Silva não está, obviamente, só no mundo. O seu posicionamento estético dita pouco de outros artistas da sua e de gerações que lhe são relativamente próximas, como o iconoclasta Matthew Barney, S. Francisco (n.1967), Liam Gillick, Aylesbury (n.1964), Peter Halley, New York (n.1953), Martin Honert, Bottrop (n.1953), Thomas Locker, New York (n.1937), Stephen Prina, Galesburg (n.1954), Thomas Struth, Geldern (n. 1954).
Apesar da transoceânica diferença das coordenadas geofísicas e socioculturais das suas existências registam-se a proximidade das suas posturas socioculturais, relativamente à utilização, e uma similitude potencial na sua relação mental com o mercado do produto artístico, nos espaços do quotidiano. Elas ajustam-se-lhe, numa tendência comum: a valorização da ambiência estática, na diversidade da Arquitectura de Interiores qualificada.
Não cairá mal, por isso, invocar – a propósito de Ruy Silva, pintor, sujeito passivo deste escrito – a asserção de Bill Viola, quando afirma não estabelecer “distinções entre o ambiente enquanto mundo material exterior (hard stuff) e a imagem espiritual desse mesmo ambiente (soft stuff)”.
Considero que, também ele, assume essa posição erecta de indivíduo visceralmente artista, nesta sociedade onde (quase) tudo se vai, inexoravelmente, globalizando e intuindo novos padrões axiológicos.

José-Luís Ferreira

Criar é rasgar a infinitude do poder, de todos os poderes, daqueles que se sobrepõem à dimensão do homem, e criar é afinal o apanágio do artista, a sua grande desforra.
Entre a água e a luz, surge a criação, o poder de ao sétimo dia, substituindo-se a Deus num acto criativo, o artista criar à imagem da sua própria imagem. Se o homem criou Deus à sua imagem para depois, de forma inteligente, fazer deste a criação, o artista cria-se a si próprio nos corpos que habita, profunda provocação que os infiéis cercearam com as regras do anacronismo. Se Aristóteles estabeleceu a relação entre todas as coisas a partir dos quatro elementos: água, ar, fogo e a terra, o artista ao criar o homem construiu o mundo à sua imagem, à imagem dos seus prazeres e o corpo surge aqui como corpo moderno que ambiciona um nível de espectacularidade capaz de concentrar em si a atenção e de se subtrair ele próprio ao anonimato. O corpo faz-se construir enquanto edifício, tectónico, ou enquanto luz, raio sideral e etéreo, ou ainda enquanto alma, ar e efémero, e enquanto rio, passagem, movimento contínuo na sua prisão. Aqui, o corpo, partes do corpo, sexuais resgatadores de uma pulsão secreta, jazem presos em luz e é essa a identidade da sua contemporaneidade.
O corpo na obra de Ruy Silva é o pólo de atracção a partir do qual se constrói a narração. Um corpo que rompe o limite da tela, se fragmenta e se projecta ao longo das suas diagonais. Um corpo que entra em cena da direita para a esquerda ou vice-versa, em rasgos imagéticos de um expressivo grafismo, como uma escrita que contrasta com uns fundos monocromáticos, vazios mas electrizantes e recorrentes de uma linguagem plástica que nos remete para o segundo movimento da Pop.
O corpo recorda-nos aqui, a aparência do movimento que desliza enquanto a luz, elemento supremo e primeiro da criação o reduz, o aprisiona e o limita. Entre o profano e o sagrado, o gesto como o artista “deo ignoto” arranca do fundo de si, da tela, do chão estéril corpos nus. Corpos e partes de corpos, tão distantes e tão próximos, a distância da ausência que se faz gesto e do gesto que se faz desenho. Será saudade, ou distância na certeza do que não se possui e que se persegue. Aqui, é o corpo, as mãos, os pés a ausência que se rasga de sargaços e se faz luz, néon colorido.
Escravos que choram canções de cadeados ou corpos prenhes parados na ausência da raiva, contidos de serem estáticos, amplos e longos ciprestes entorpecidos no espaço de serem tempo. Corpos cansados de sexos jovens parados no arrojo do traço, prisão que a luz apenas transforma em volúpia e é esse o sentido da criação em Ruy Silva, neste corpo que ele afinal habita.

Júlio Quaresma
Crítico de Arte, Arquitecto e Pintor
in “O CORPO…O LUGAR ONDE TU HABITAS”
Bruxelas e Porto, 2006

A pintura que se nos aparece pela mão de Ruy Silva desafia o observador a entrar num mundo que aparentemente é real (porque figurativo) mas no seu profundo tem muito de fantasia e principalmente de íntimo. Os trabalhos que temos pela frente funcionam (poderemos assim designar) como uma espécie de porta, talvez janela, que nos dá acesso a um labirinto construído por elementos fortes, como o corpo feminino, mas também à mistura com outras formas de difícil descodificação e que provavelmente só o autor poderá aceder sem barreiras.
Trata-se de um conjunto de técnicas mistas que transpiram um misto de maturidade, mas simultaneamente de ingenuidade e é aí que, na minha opinião, reside o interesse de todo o trabalho. Ruy Silva optou pela linguagem do real, do figurativo, mas sem contudo deixar de imprimir um cunho muito próprio, munindo-se de novas marcas que funcionam como sinais evidentes de um percurso que se prevê singular.
Pelo que se nos depara, facilmente se depreende que o autor quer alicerçar um estilo próprio ligado umbilicalmente à sua forma de estar, de sentir e de se ligar com os outros. Esta pintura quase nos entra, que nos sussurra e que nos toca. Atrevo-me a dizer que quase nos fala, assumindo integralmente o real papel da pintura!

Agostinho Santos
In “Maturidade e Ingenuidade”
2005

… Ainda que podendo conservar-se, o sonho, como “as mais virtuais de todas as realidades que o mundo secular da sensatez rejeita”, o processo na ciência e na tecnologia desvendam, actualmente – a um ritmo imprevisivelmente acelerado – a revelação de aspectos desconhecidos da visibilidade do universo que ultrapassam o imaginário do fantástico, aqui mesmo (em nós), no nosso “lado de fora”.
Não decorridas, ainda, duas décadas, sobre o momento físico, em que, no tempo, o jovem Ruy Silva enfrentava (e se confrontava com) o status mental e cultural dominante da sua rústica e bela cidade natal, assumindo um papel inovatório – que outrora, outra gente ensaiara sem sucesso na Arte (não apenas) – eis que surge o seu primeiro Livro Albúm, um repositório de imagens onde se reproduz (e desnuda qual striptease gráfico) a sua evolução intimista de criador plástico e onde se afirma a sua notável persistência, na pesquisa e no desenvolvimento projectivo da sua postura, aliás notáveis, no desvendamento de uma linguagem comunical fortemente apelativa, com quanto marginal, ou solitária, porém contida, na dimensão desta lusíada contemporaneidade envergonhada, no dealbar, ainda, do século XXI.
Do seu percurso resguardado – aparentemente sem percalços ou dificuldades existenciais (guardados na memória secreta da sua mundividência) – fala a selecção de registos textuais antológicos que, neste livro (quase integralmente) se reproduzem, alguns (se não, também, os meus próprios) de extrema concisão crítico-analítica.
Nesta declaração preliminar, para que tive o privilégio de, por ele, ter sido convidado, muito mais se me importa, talvez, (!), se não discorrer, ou efabular, poeticamente inspirado, pela viagem que em si mesmo este pequeno-grande Livro proporciona, desde os primórdios experimentais do seu trabalho, até às mais recentes, legítimas e justificadamente ambiciosas explorações estéticas em que profunda exigentemente se envolve.
Uma […] “obra de arte tudo-nada vale, em si mesma, unicamente, aquilo que um comprador sensível, expedito, ou bem aconselhado, está disposto a investir pela sua posse” […], afirmava recentemente, um patent-food empacotado numa reportagem audiovisual televisiva, à qual, por ser metodologicamente correcta, na sua postura (des)intelectual e pragmática, não me passou despercebida, enquanto defensora da dignidade do mercantilismo trivial da actualidade.
… Se a ambiguidade imagética é um factor que valoriza o visível, se os conteúdos de silêncio poético conferem eloquência à mensagem estética e se uma autenticidade empática essencial flui da obra plástica (do pictoral, neste caso), estes três pontos fundamentais intercomplementam a definição – num plano de veracidade – de o observador criticamente exigente se encontrar na presença triangular de um acto criativo consumado.
No passo largo e (in)prudente do seu percurso pós-iniciático, Ruy Silva será um daqueles cada vez mais raros “novíssimos” que, paradoxalmente (não acusando a crise de clonagem, frequente nas correntes século-vintistas), sedimenta o desenvolvimento do seu processuário estilístico na (re)descoberta do renascimento classificado até o iluminismo fóssil (?) e nas pós-avant-gardes impressionista-expressionista-cubista, numaespécie de viagem agnóstica e sensual, paralela ao minimismo proto-simbiótico da “minimal’art”.
Estebelecendo como sintomáticos estes pressupostos, cada uma das obras aqui exibidas terá, portanto, uma carga tão idêntica como acrónica (se ignorarmos a curta duração dos quinze anos de sedimentação do seu trabalho), onde circunvolvem tendências para a harmonia compositiva e o equilíbrio gráfico, no intimismo de uma mónada onde as fronteiras culturais com a sociedade que o rodeia se encontram – na óptica da minha opinião – salutarmente, ainda, descomprometidas e isentas de “fidelismologias”.
A redução do (in)espacial ao (in)finito, numa relação abstracta com a intemporalidade geohistórica, seria uma teoria talvez excessivamente pretensiosa, se radicalmente associada à temática subjacente a esta exposição singular, que o autor magicou a partir do tudo-nada intuitivo por que se fabrica – por si mesmo, nele próprio – uma composição de ensaios pictóricos onde centraliza e expande algo que, da sua experiência existencial, implanta num “rectângulo de lados (des)iguais”, onde se obvia a similitude à raiz quadrada do suporte em que coexiste – tal como, na realidade críptica deste Universo da Água, o hidrogénio se indexa, proporcionalmente intersociado ao oxigénio – na multivalência bio-carnal, (a)sexuada e pró-andrógina do corpo humano, nos contornos da sua ancestral morfologia.
Esse fascínio de Ruy Silva pelo corpo humano que se glorifica e anonimiza no desenho (seja em posturas axiais, hirtas ou jacentes, sentadas genuflexadas, voláteis ou reptícias), sintetiza-se e (des)integra-se nas partes do todo de cada quadro; monumentalizando-se, conferindo-lhe o primado poético: lírico e epopeico (do erotismo), heróico (na retrospectividade epicúrea) e supremamente hedonista (exponencial, selectivo e sem concessões de gratuidade).
Não obstante o todo – quasi-intangível – de cada quadro, permanecerá inexplicável e, possivelmente aí, residirão os seus atributos essenciais (insusceptíveis de tradução, através de qualquer obsoleta memória descritiva, por mais ostentação erudita que contivesse, sobre o códex das cores e a práxis dos pudores inexplícitos!).
O misterioso poder empático que, na obra de arte, se potencia, enquanto linguagem (in)traduzível, no decurso da sua passagem virtual (de inédita a pública), envolve um poder mágico de reciprocidade: o feedback comunical, a partilha sublimar da energia dos sentimentos que – em casos excepcionais, apenas – obtém ecos generalizados que lhe outorgam a grandeza semântica das “formas unipessoais da fala humana”.
… Ainda que prematuramente, não será muito arriscado pressentir essa capacidade rara, num artista tão jovem como este Ruy Silva. Daqui se lhe augura e remete, para um futuro próximo, o ónus da prova.

José-Luis Ferreira
in “A (RE)DESCOBERTA POÉTICA DA NUDEZ
A altura da base, em rectângulos de lados (des)iguais”
Caramulo, Janeiro de 2005

Enquanto o Museu Nacional Grão Vasco se vai aproximando paulatinamente do final das comemorações do seu centenário, neste ano emblemático de 2016, em multiplicidades realizadoras de diversos e plurais eventos artísticos, académicos, sociais e museológicos (nas suas mais amplas formulações conceptuais), renovam-se as espectativas no que ao futuro se pode esperar do comprometimento desta instituição museológica de Viseu, agora alcandorada ao estatuto de museu nacional e secular. E o comprometimento fica bem patente neste magnífico apontamento expositivo de Ruy Silva, um artista plástico natural de Viseu, que nos convida e incentiva à reflexão intelectual e sensorial, perante o espanto provocatório da contemporaneidade, na sua relação impositiva perante a consolidada antiguidade que faz do Museu Nacional Grão Vasco uma das referências maiores da arte renascentista em Portugal.
É neste contexto desafiador, no melhor dos sentidos que a valorização da arte contemporânea pode ter, que esta mostra expositiva nos interpela, afirmando o presente sem concessões de facilidade modal e sem preconceitos de construção ideológica, que a plasticidade dos corpos e das figuras imanentes de cada obra exposta nos convida a apreciar, como se em cada linha desenhada, em cada traço percebido, em cada apontamento cromático enunciado nos fosse concedida a possibilidade de entrar no sempre complexo mundo do acto criador, e entretanto, nos fosse permitido o privilégio de com ele, o próprio artista, podermos repensar e recriar a obra na sua essência valorativa mais pura e elevada… E é assim que conseguimos, talvez, reencontrar a beleza do pormenor numa espécie de ponte intemporal que alcança aquele passado mais longínquo do grande Mestre mas que, afinal, parece poder ser revisitado exatamente agora, neste instante em que nos detemos nas conjecturas do detalhe e nas inevitáveis tentativas de estabelecer comparações que o tempo não consegue desfazer. Tão próxima e, ainda que possa parecer paradoxal, tão profunda no tempo, e bem mais que enganadoramente distante, pela simbiose plástica que o autor consegue representar em cada uma das suas criações.
A beleza deste conjunto artístico agora produzido por Ruy Silva, neste seu tão especial acto criativo especificamente produzido para o diálogo, forte e impressivo, das suas criações com as obras maiores de Grão Vasco, reside precisamente neste maravilhoso universo da minúcia do pormenor e, a partir dele, no deslumbramento pictórico de nos expor uma mundividência luminosa que não tem tempo, nem ocupa lugar… Porque é perene e omnipresente, como se no interior do museu a provocatória surpresa desta arte assumidamente contraditória, como discurso contemporâneo, não passasse afinal de uma linha quase imperceptível de continuidade que se percebe de um modo que não sabemos destrinçar – se é mais explícito nas suas expressões mais racionais ou mais perceptivo nas relações emocionais que connosco consegue estabelecer. Sabemos que existe, que está ali presente e que nos desassossega nas interrogações maiores que a magistral silhueta columbina consegue simbolicamente sintetizar: toda a materialidade mais entendível aos olhos de todos nós, traduz sempre um sentido de espiritualidade que perdurará no interior de cada um, consoante a nossa especial sensibilidade.
É este o incomensurável contributo de Ruy Silva para o centenário do nosso museu, na indelével marca que nos proporciona com o seu “D’Áprès Grão Vasco: Do Essencial Ponto”, em mais um testemunho positivo de celebração do presente, num espaço museológico que ciosamente guarda as obras maiores que os nossos mais ilustres e geniais antepassados nos legaram.

Dr. Agostinho Ribeiro
Director do Museu Nacional Grão Vasco

Escrevi faz muito tempo sobre a obra de Ruy Silva, numa altura em que laranjas ocupavam o referente simbólico da sua obra e o desenho posicionava-se enquanto elemento estruturante. O centro da sua obra continua no entanto a ser a figura humana, para agora numa abordagem da obra de Vasco Fernandes, uma elegia fácil se entendermos a pintura de quinhentos e as nuances introduzidas pelo Renascimento e pelo Humanismo de Miguel Silva.
Nesta mostra, o autor, num volte-face teatral, confronta-nos com duas das maiores problemáticas da pintura contemporânea, como um jogo de fragmentação/emparedamento, entre o minimalismo dos movimentos do tecido tratados de forma sintetizada e a sensualidade da matéria têxtil moldada pela luz em diálogo com a sempre presença, embora por vezes apenas em detalhe da carnação. Ruy Silva continua a perseguir uma modernidade que agora apenas molda de modo mais cénico.
Sem mais assunto, com os melhores cumprimentos

Júlio Quaresma
Crítico de Arte, Arquitecto e Pintor